Estado da Educação em Portugal!

Todos sabemos que as escolas têm alguns problemas. Como em todas as actividades há bons profissionais e maus profissionais. Obviamente, um mau profissional nesta área, que não cumpre com todo o seu dever, origina resultados catastróficos, não só para as turmas que lecciona, mas também para toda a imagem, já péssima, da classe dos professorem em Portugal.
Mas quando a própria Ministra da Educação, profere declarações, como as efectuadas ontem, denegrindo toda a classe que ela própria representa, então entramos num beco sem saída.
Esta, optou pela solução simples de culpabilizar escolas e professores pelo insucesso escolar.
Tal qual ouvimos o "Zé Povinho" a dizer "os políticos são todos corruptos", ou "são todos uns ladrões que só se preocupam com o bolso deles", equivalentes são as declarações da Ministra da Educação.
Estando esta a representar a classe dos docentes portugueses, pior se tornam estas declarações. Em vez de se tentar moralizar, melhorar e expor o esforço que cada um destes faz (ou na sua maioria) para que tudo corra da melhor forma, apesar de muitas faltas de condições e das conhecidas deslocações não financiadas a que estes são obrigados a efectuar, opta-se antes por piorar a situação.
Gera-se assim a ideia que os docentes, de forma geral, são maus profissionais. Isto obviamente cria uma onda de desincentivo individual - "ora, se ninguém faz nada porque é que eu haveria de ser o único a me esforçar?". A bola de neve está criada!
Este ministério pretende passar a avaliar também o docente, o que seria algo justo.
Mas não com a actual proposta.
Alguns factores que me chamaram à atenção foi o facto do docente, num dos pontos de avaliação, ser avaliado no final do ano lectivo pelos próprios Pais dos alunos.
Se já todo o sistema está feito para que o aluno passe de ano, independentemente do seu comportamento e resultados, agora ainda pior. Visto, por exemplo, em muitas escolas, as turmas estarem divididas consoante os seus resultados (sendo as turmas A's as melhores, e piorando ao longo do alfabeto), um professor diante uma má turma, terá o seu critério de avaliação comprometido, mediante a 'insatisfação' da avaliação por parte dos pais dos alunos. Gera-se assim facilmente a ideia errada do "professor incompetente", à qual disciplina apenas uma pequena percentagem dos alunos obteve sucesso ou a do excelente professor que "passou a turma toda", apesar dos seus alunos não terem atingido os requisitos considerados de mínimos.
Ainda, os professores também serão avaliados, mediante a taxa de abandono escolar.
Ora, sabemos que a taxa de abandono escolar, está associada a factores sociais, na maioria dos casos - os pais necessitam do trabalho do filho para sustento da casa, deslocação longa até à escola mais próxima, o não reconhecimento da família da importância dos estudos, entre outros factores. Ou então, se supostamente a razão do abandono escolar fosse causado pelos professores, o aluno poderia desejar abandonar a escola devido a dois ou três docentes de quem não gostaria, e desta forma, todos os outros seriam prejudicados.
Não me parece que faça sentido esta avaliação.
Parece-me ainda haver uma clara desresponsabilização do estado, sobre todos estes factores.
Fala-se que querem que os professores passem mais tempo na escola.
Acho óptimo! Seria a situação ideal.
Mas para isso, a escola terá de ter espaço físico para comportar os docentes que não estão a leccionar. As, por vezes, minúsculas salas para o efeito, não contêm meios informáticos decentes e suficientes com acessos "reais" à Internet, ou mesas suficientes para que o docente possa preparar aulas e corrigir testes (por exemplo), e ainda condições de ambiente, como o silêncio e temperatura (aquecimento/ar condicionado).
Obviamente, que actualmente, os professores tendem a proceder estes serviços em casa. Passam fins-de-semana e noites durante a semana, a trabalharem para a escola, prejudicando a sua vida familiar, porque a escola não tem condições de trabalho.
A avaliação de docentes é algo positivo, no entanto, estes têm de ser defendidos de avaliações injustas, arbitrárias, caprichosas ou mesmo de ameaças, para que não seja posta em causa a eficácia da profissão.
De quem vê tudo isto de fora, vê uma clara responsabilização e culpibilização da classe docente, e nada de novo que lhes dê melhores condições de trabalho, ou mesmo que os defenda!
Por fim, considero que se continua a pensar em números e estatísticas.
O importante é reduzir as taxas de abandono escolar e aumentar as taxas de escolaridade da população face à União Europeia.
Assim, agora, é muito difícil para um docente reprovar um aluno até ao 9º ano de escolaridade, pois entre conselhos de turma e recorrência da nota por parte dos pais, o aluno quase sempre acaba por passar de ano. Mas com os novos estatutos a situação vai com toda a certeza piorar, e tem ainda que se ter em conta que a escolaridade obrigatória passa a ser o 12º ano.
O mais provável acontecer, tendo em vista a experiência anterior, é que vamos ter alunos com o 12º ano concluído, com menor nível conhecimentos do que actualmente, e do que há uns anos atrás.
Isto vai acartar consequências complicadas para a admissão dos alunos em faculdades, pois estas vão ter que diminuir o nível de exigência inicial, e consequentemente, obrigará após licenciatura, à aquisição de cursos de especialização, de mestrados e doutoramentos, como requisitos essenciais para a entrada no mercado de trabalho.